domingo, 22 de agosto de 2010

Verdade

Há de se dizer a verdade pelo único fato de ser verdade?

E quantas verdades diferentes terei que dizer para chegar em um pingo do que foi a realidade?

É necessário que eu aceite a imperfectibilidade da vida.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Entre ficar sozinha comigo mesma e ficar sozinha na presença de alguém, talvez prefira a solidão absoluta. Mais espaço, menos ilusão.

domingo, 15 de agosto de 2010

Entre nós dois

Entre nós dois foi sempre assim:
Cama, sangue, lençóis sujos
Tesão, tensão e contradição

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Com você

Com você,
É a serenidade
E a cor
E o papel,
A sinceridade,
O natural,
O habitual

Com você,
São lindas
Paisagens
Mesmo que
Escuras
Disformes
Alteradas

Com você
É o cotidiano
O riso
É o tempo
Que passa
Diferente
É o tempo
Do nosso tempo

Com você,
A tranquilidade,
A harmonia
O entendimento

Com você,
A música
A voz
A parceria
A simplicidade
A vontade
A liberdade

Com você
É inesquecível
É breve
É intenso
É o novvo
É cotidiano
É descoberto
É descoberta
É a eterna
SINTONIA.


Dedicado a Liv.

sábado, 24 de julho de 2010

Cantar

Eu chorei, esperneei, me dopei, me anestesiei, vivi normalmente, como um robô que segue seu script diário. Me apaixonei, me desapaixonei? Nunca se consegue esquecer.

Eu quis estar em grupo, tentando espantar a solidão. Mas mesmo em grupo, ainda há a solidão. Mas encontrei amigos. Sim, encontrei amigos!Olha só, ainda posso encontrar amigos! De que adianta querer ser profunda, reflexiva, se são só pistas, e tudo está fora da jurisdição.

Preciso de calma. De estar junto a mim, de estar junto de meus amigos. De rir com meus amigos.

Eu ri , eu quis rir. Trancafiada quis rir. Eu cantei para mim como o pássaro engaiolado canta. Ele canta não é para quem o engaiola, mas para tentar se distrair de sua prisão.Ele canta para ser feliz. Mas ele é feliz?

Hoje estou muda? Deveria cantar mais.
Cantar para se libertar! Desenhar o horizonte, as montanhas, tão fantasmagoricamente belas.

Juntar os cacos. Sempre. E viver, e cantar, e se libertar.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Nasci um olho ambulante, mas só descobri que nasci quando minhas mãos reconheceram meu próprio corpo.

Minhas mãos são minha consciência, aquilo que possuí o potencial de formar algo concreto, portal para a materialidade.Com elas, eu entro em contato com o mundo e ele entra em contato comigo.

O primeiro cumprimento é o encontro de minha mão com sua mão, com seu ombro, com seu ser. Ela diz tudo, ao mesmo tempo que não diz nada. A mão indica desejos, dá pistas de nervosismo, responde ao medo, indica empolgação, demonstra abertura, declara fechamento, responde, responde e fala, dialoga, acompanha, faz declarações, tudo em silêncio.

Minhas mãos são meu livro aberto para o mundo, ponte para o outro, instrumento que carrego para conhecer e reconhecer. Elas estão de tal forma incrustadas nos meus dias que não as percebo. Mas basta um momento tocando uma a outra, deslizando sobre os objetos que me circundam para perceber a riqueza, toda a riqueza que ignoro na penumbra do que é habitual.

Olho para sua silhueta repleta de falanges e linhas. Essas linhas que carregam minha identidade na ponta de cada dedo, essas linhas que marcam minha palma e segredam meu passado e meu futuro.

Meu passado aparece nos calos, calos dos que carregam o lápis na mão desde que aprenderam a segurar um. E lápis para desenhar e escrever, para descrever, orientar, para pensar e rabiscar. Com a ponta do lápis descrevo e absorvo o que está à minha volta. Impossível saber se o contato funciona de fora para dentro ou de dentro para fora.

Mas a maior parte do passado está escondida na capa invisível das lembranças. Só eu sei onde essas mãos já passaram e como passaram. Quantas tintas, cadernos, livros e canetas ja manusearam, quantas pessoas já tocaram e acariciaram, quantas vidas já envoltou, abraçou, quantos objetos já reconheceu no escuro, quanto já me ajudou, em silêncio e objetivamente, essas mãos que agora olho.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Passagem na infância

Estava no colegial. Minha professora de Educação Artística organizara uma excursão para visitar a exposição temporária do Museu Vale do Rio Doce.
No ônibus fretado, a turma cantou músicas animadas para o entrosamento, algo relacionado ao roubo do pão na casa de um tal de João, até a chegada no local.
Na época, eu rabiscava muito durante as aulas. Desenhava, principalmente, personagens imaginários na contracapa dos cadernos. Todos contextualizados em histórias fantasiosas e mirabolantes de minha autoria.
Não pensava muito no conceito de arte. Mas, de acordo com minhas práticas, se relacionava à expressão de um sentimento ou sensação referentes a algum personagem de enredo específico. Mal sabia eu o quanto a exposição ampliaria meus horizontes.
Estava um dia quente, muito ensolarado. Enquanto nos acotovelávamos em uma fila idealmente reta, esperávamos a monitora para o acompanhamento na exposição. A professora deve ter introduzido algo sobre o artista e sua trajetória, não lembro muito bem.
Entramos em uma sala escura. Total negridão. Não sei se a falta de luz se fez sentir com mais intensidade pelo contraste entre os ambientes. Mas eu não esperava, absolutamente, aquela ausência toda. Na minha cabeça não fazia sentido uma exposição em lugar mal iluminado, esconder as obras para quê?
Então, quando os olhos começaram a se acostumar com o ambiente interno, comecei a perceber vários pontos luminosos vermelhos, quase como se uma nave espacial ou algo do gênero tivesse se instalado no meio da sala. Era grande, ia até o teto, ou assim eu pensava, já que na época não era lá uma pessoa muito alta.
O chiado, quando entramos no ambiente , era um tanto incômodo. Não podia distinguir um som de outro, era a sensação de ter entrado em uma sala em que todos começassem a falar ao mesmo tempo e a fazer sons distintos e isso se transformasse em um zumbido disforme e ininterrupto.
Cheguei mais perto, e só então pude perceber que não era uma nave, mas sim uma torre constituída de inúmeros rádios, alguns pareciam bem velhos, outros nem tanto. Enquanto eu contornava a torre radiofônica, dependendo da distância entre eu e as fontes sonoras, conseguia distinguir algumas músicas, ou vozes de interlocutores em seus programas matinais, ou, as vezes, somente chiados.
Foi quando recebi a informação de que a obra se chamava “Torre de Babel”. A partir desse momento, as sensações e as associações se misturaram em minha cabeça. Enquanto via o resto da exposição, uma parte de minha mente continuava refletindo o significado de tudo aquilo.
Foi a primeira vez que tive a sensação física de estar dentro de uma obra. E o mais impressionante foi que não se limitou às sensações auditivas, visuais e espaciais, mas aqueles minutos conseguiram ser prolongados tanto pela minha imaginação quanto por minhas reflexões. Foi como testemunhar uma indagação ou um mistério, porque não cheguei a uma conclusão ou significado, mas em uma multiplicidade, sem resposta final.
A obra “Torre de Babel”, de Cildo Meirelles, foi meu primeiro contato com o que mais tarde descobri chamarem de arte contemporânea.